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Opinião

No futebol, Pelé e Garrincha sintetizam o povo brasileiro.

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Os dois maiores ídolos do futebol mundial são lembrados sempre quando se fala de futebol arte de antigamente, Pelé e Garrincha são dois gênios do futebol, que transformaram o esporte em demonstração artística. Embora iguais na genialidade, são totalmente diferentes em seus estilos e personalidades. Enquanto um jornalista inglês comparava Garrincha a Chaplin, sobre Pelé a mesma imprensa inglesa disse “.. é a figura suprema do futebol. Como Garbo e Picasso basta-lhe um só nome.

Dentro de campo nas disputas entre Santos e Botafogo na década de 1950 e 1960 ficava a dúvida quem era o melhor e mais adorado pela torcida a favor, em certas vezes também pela torcida adversária. Os dois eram ídolos absolutos mas distintos. Pelé deixava as pessoas boquiabertas, enquanto Garrincha as fazia rir. Um era negro e o outro mestiço de origem indígena. Eram artistas que enchiam estádios e eram tratados com paixão quando em campo. O tratamento que receberam do povo brasileiro, depois do fim do futebol em campo, também foi totalmente diferente.

A diferença dos iguais

Pelé, inteligente, multihabilidoso, forte, resistente, rápido, completo como atleta, estava sempre com o pensamento alguns segundos a frente do adversário. Foi eleito o atleta do século, título jamais questionado. Garrincha, imprevisível, rapidíssimo na arrancada, imbatível no drible, com as suas duas pernas tortas que proporcionavam movimentos impossíveis o faziam parecer um deficiente físico. O primeiro parou de jogar no Brasil ainda no auge, com a consciência de que ninguém liga para ídolos caídos e que não há futuro para quem erra se despedindo além da hora. Garrincha, por sua vez, que tinha interesse zero por estratégias ou esquemas táticos, também não se preocupava como seria seu futuro depois do futebol, assim como não se importava com a camisa do adversário a sua frente. Não visava o dinheiro que ganharia pela partida ou título, só queria a diversão. Parou tarde, muito tarde. Permaneceu “jogando” em times de exibição como o Milionários, já sem condições físicas e com o corpo desgastado por lesões e pelo alcoolismo, no fim de carreira era só um sombra do que o povo lembrava dele.

Pelé após sua carreira no Brasil queria melhorar na vida, estudar, aprender inglês, virar empresário, aproveitar sua fama para fazer dinheiro. Para isso tudo aceitou ir para o melhor país que existe, foi para a América. Garrincha queria uma vida pacata jogando pelada, longe dos holofotes, driblando despreocupadamente pela direita, e bebendo com os amigos no boteco. Não tinha ambição profissional nem pessoal. Entre estar numa grande cidade da Europa ou no campo de terra batida da pelada em sua cidadezinha no interior do Rio, preferia incondicionalmente a segunda. Viveu a vida de forma simples, não gostava de conversar ou discutir futebol, só de jogar, por diversão e por natureza. Comodista e acostumado a sofrer quieto e ser mimado pelas massas, as expressões mais ouvidas na sua entrevista no programa Vox Populi em 1978 eram do tipo: “eu sofri.. mas está tudo bem”, “… mas eu estou contente assim”…”eu estou feliz com isso… eu aceito isso.. eu me conformei então, tudo bem

Pelé com ajuda do presidente da CBD a época e futuro presidente da FIFA João Havelange proporcionou com sua influência a ida dele para os Estados Unidos a fim de introduzir o “soccer” no país no time do Cosmos. O casamento entre Pelé espetáculo e o show business era perfeito. Dinheiro privado volumoso envolvido, sem interferência política, a publicidade em torno de sua figura atraiu a admiração até de quem não gostava de bola redonda conduzida com os pés. O atleta modelo, completo, determinado e ambicioso, conseguiu vencer e obter fama que faltava naquele resto de mundo, depois disso, nunca mais deixou de ser ídolo e confirmou seu posto de rei.

Garrincha mesmo depois da fase áurea do botafogo ainda chamava plateia para vê-lo, muito mais pela fama do passado do que por aquilo que se via após a final do carioca de 1962, quando foi sua grande última partida como o anjo de pernas tortas. Pelo seu carisma e fama foi sempre ajudado das mais diversas formas. Continuamente chamado para jogos comemorativos e de caridade, por times que o pagavam só para ele entrar em campo e ficar praticamente parado. Teve suas dívidas astronômicas de impostos pagas pela CDB de Havelange. No período de morada na Itália com Elza Soares, a embaixada brasileira até o conseguiu um emprego fácil com um altíssimo salário para o serviço de promotor de vendas de café brasileiro, emprego que ele simplesmente abandonou. Nunca lutou por vantagens regalias nos clubes ou seleção, não se importava em ganhar o salário pífio comparado a seu talento, seu maior e único prazer era driblar, se necessário, ou se quisesse, duas, três ou quatro… vezes seguidas, o mesmo adversário e da mesma forma desconcertante.

Pelé com sua postura e carisma, consciente de sua condição superior no esporte caiu nas graças do povo americano que o idolatrou independente das preferências esportivas do país, pois aquele era um vencedor e ídolo, o melhor que já existiu e obrigatoriamente um exemplo que todo jovem americano deveria olhar e seguir. Mas na mesma época na década de 1970, a visão dos brasileiros aqui foi que ele virou o “negro que ficou rico e virou branco“aquele “que esqueceu de onde veio e casou com mulher branca“, o “rico que não visita os bairros pobres“, “aquele que tem dinheiro e não o divide com quem não tem“, “que abandonou o Brasil e foi viver com os gringos“.

Garrincha nunca jogou em time estrangeiro e não se interessava em sucesso, depois que sua época passou e ele se arrastava em campo virou o coitadinho, o enganado, a vítima da ganância dos cartolas. Assim, frente a sua imagem de derrotado na vida, e vítima inocente e indefesa, caiu nas graças do povo sentimentalista e que ama ver outros em condições piores que a sua, mesmo pensamento dos intelectuais adoradores da derrota, da inveja e do “coitadismo” do Brasil.

O vitimismo que estragou a imagem de garrincha

Por ter cometido o “pecado imperdoável” de ser bem sucedido e ganhar dinheiro honestamente com seu talento, ainda mais no capitalismo americano, Pelé foi até acusado de ser o responsável pela derrocada e desgraça pessoal de Garrincha. Uma rivalidade e mágoa de um com o outro que nunca existiu nas declarações de ambos, foi inventada e alimentada pela imprensa e sustentada pela intelectualidade do Brasil. O pensamento seguindo a velha concepção socialista do oprimido e opressor era, Garrincha, a imagem de inocente, ingênuo, quase um débil mental fora de campo, na concepção depreciativa da elite intelectual, deveria ter sido louvado e ser um exemplo, ser sustentado e auxiliado eternamente pela sua incapacidade e condição inferior irremediável na vida. Pelé pela sua posição destacada de vencedor deveria ser visto como o opressor, devedor eterno pela injustiça que o beneficiou e o tornou um sucesso, exemplo da desigualdade condenável que deve ser sempre combatida e reprovada.

Até hoje as mesmas conversas quando se olha a vida dos dois, e também a morte, é a mesma de 50 anos atrás. Pelé ainda muito admirado, principalmente no exterior, mas considerado um metido, esnobe, individualista e egoísta, segundo os brasileiros. Garrincha é idolatrado, mas ainda um coitado que não era capaz de ter independência pessoal ou financeira, vítima eterna dos outros, um sofredor. A mística em torno dos dois, mas principalmente em torno da santidade proletária inventada de Garrincha, prevaleceu no consciente coletivo e na história. O pensamento simplório e irreal tipicamente de esquerda prevalece: se um foi bem na vida e prosperou e outro viveu e morreu sofrendo com necessidades, debilidades e doenças, uma injustiça aconteceu, e essa poderia ser evitada se o primeiro não fosse tão diferente do segundo, simples assim, tudo explicado mesmo sem lógica, coerência e sem vínculo ou conexão nenhuma pessoal ou profissional entre os dois.

Influência do pensamento socialista no legado de garrincha

Quando o escritor biográfico Ruy Castro fã de futebol e de Garrincha buscou incansavelmente o que era verdade ou mito na história do jogador e escreveu o livro Estrela Solitária, foi processado pelas filhas de Garrincha. Elas, mesmo depois de concordarem com o conteúdo do livro, processaram o autor e pediram um acordo de 1 milhão de reais. Acabaram conseguindo na justiça o valor correspondente a 5% do total das vendas da biografia. Na época da morte de Garrincha, criticaram Pelé por não ajudar o pai e a elas mesmas. Acostumadas com a vida cômoda de sustento pelo pai até depois de adultas e casadas, queriam manter-se no assistencialismo eterno. O pensamento e atitude como coitadas permanecem, possivelmente vindas do pensamento popular de inferioridade e reforçadas pelo ambiente intelectual brasileiro que estimula a mediocridade e penaliza o sucesso.

Mas Garrincha com todos os defeitos e qualidades nunca usou a vestimenta de coitado ou se achou um injustiçado, pois entendia que injustiças e prejuízos são normais e comuns na vida, não só na dele mas de todos. O caminho que escolheu não foi melhor nem pior que o de Pelé, só foi diferente, e de acordo com as suas escolhas vieram as consequências, afinal somos livres para fazer nossas escolhas, mas depois de feitas não temos mais liberdade sobre as consequências. Pelé por ser negro poderia ter tido destino ainda pior, sofreu injustiças e prejuízos devidos e não devidos, mas lutou e venceu fora de campo. Garrincha levou a vida do seu jeito, escolheu a vida simples, sem grandes preocupações, perdeu muito no fim da vida, mas deixou a alegria para os brasileiros e espanto aos estrangeiros. Fora de campo a atitude do povo americano, e mundial, com os ídolos é que foi diferentes da do povo brasileiro. De qualquer forma, o brasileiro errou nas formas de ver e tratar tanto os sucessos e os fracassos de ambos.

Referências bibliográficas:

  • Editora terá de indenizar filhas de Garrincha. Disponível em: https://www.conjur.com.br › 2006-fev-17 › editora_indenizar_filhas_Garrincha.
  • Castro, Ruy. Estrela solitária – um brasileiro chamado Garrincha. São Paulo, Companhia das Letras. 1995
  • Placar Magazine – 19 de nov. de 1982 – nº 65
  • Entrevista com Garrincha. Programa Vox Populi. 1978. Disponível em: «https://www.youtube.com/watch?v= TbZ3j-Wpcms» Disponível em «https://www.youtube.com/watch?v=wKAWnUOs-HY»
  • Entrevista com Pelé. Programa Vox Populi. 1978. Disponível em: «https://www.youtube.com/watch?v=Hfb8PkCUorA&list=PLn_YkZF2TTNuf76-RLYN97N0AIM3cTZb0&index=10»

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PFernandes

Colunista associado para o Brasil em Duna Press Jornal e Magazine, reportando os assuntos e informações sobre atualidades sócio-políticas e econômicas da região.

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